UNIDOS NA BUSCA PELA PAZ (Parte 2)

A vida e a morte visitaram os dois reinos e surpreenderam-se ao verificar que o filho do rei Adelmo estava morando no castelo do rei Clemêncio. Consultando o espelho dos fatos, que sempre lhes mostrava o que tinham necessidade de saber, descobriram que o jovem abandonara o reino de seu pai há sete anos. Eis, leitor amigo, como tudo aconteceu:

Leopoldo era um príncipe muito jovem e inseguro. Sua maior felicidade era passar horas inteiras na torre do castelo lendo histórias de aventura. Identificava-se com os heróis; vestia mentalmente suas armaduras e lutava suas batalhas, saboreando a tão doce e sonhada vitória. Mas, se a fantasia o fascinava, a realidade o desolava. Ele se sentia desvalorizado. Não passava de um fantoche nas mãos de seu pai, o rei Adelmo, e dos conselheiros da corte. Não; Leopoldo sentia que nem para isso servia, porque sempre cometia gafes nas cerimônias e formalidades. Quando não tropeçava, sorria ou falava demais. E seu pai era sempre muito sério e calado. Quando Leopoldo optava por seguir o exemplo de seu pai e calar-se, ouvia depois, por vários dias, que poderia ter sido mais atencioso e cortês. Essas repreensões contínuas corroíam sua autoestima e faziam-no preferir ter nascido uma pessoa comum, um joão-ninguém.

Um joão-ninguém certamente não teria tanto medo de errar quanto ele! Não teria que observar tantos protocolos, memorizar tantas regras de etiqueta, familiarizar-se com questões políticas e começar, desde jovem, a responsabilizar-se pelo destino de seu povo, pela sorte dos insubordinados… Ele jamais esqueceria aquela manhã chuvosa em que, para testá-lo, os conselheiros reais, sugeriram que ele decidisse o que fazer com o homem que fora acusado de incitar o povo a se rebelar com o aumento da taxa de impostos. Só havia duas opções: ou mandar matá-lo, ou deixá-lo viver. Naturalmente, ele preferiu a segunda. O que recebeu depois, confidencialmente, é claro?! Críticas, críticas e mais críticas… Ficaram lhe perguntando dias a fio como ele poderia se tornar um rei, se era tão permissivo, tão inseguro, tão medroso. Leopoldo não poderia continuar vivendo desse modo. Qualquer outra pessoa teria mais liberdade, mais poder de decisão do que ele.

Poder de decisão! Que vida mais sem sentido era aquela! Leopoldo sentiu o coração se transformar em uma pedra de gelo ao pensar na jovem com quem deveria se casar dentro de três anos no máximo. Aquilo não seria um casamento e sim uma sentença de morte. Ele precisava fugir antes que fosse tarde demais. O seu pai se tornava mais severo a cada dia. Quanto mais ele adiasse a fuga, mais difícil seria escapar.

Leopoldo precisava de um plano. Disfarçar-se-ia de camponês e, quando anoitecesse e todos imaginassem que ele estivesse lendo na torre, ele sairia sem ninguém perceber. E assim foi feito. À noite, ele já estava livre do fardo de ter que se portar como um príncipe. A uma longa distância do castelo, deitado sobre a relva contemplando as estrelas, o príncipe Leopoldo se sentia o joão-ninguém mais feliz do mundo.

E essa felicidade não mais o abandonou. Ele foi muito bem acolhido no reino vizinho. Finalmente, ele encontrara um lugar onde não se sentia constrangido. Os ideais daquele povo assemelhavam-se aos seus. Leopoldo tornou-se popular naquele reino onde o seu nome passou a ser Murilo, e as pessoas acreditavam que ele fosse órfão.

Certo dia, durante uma festa na praça, ele conheceu a princesa e se apaixonou por ela no mesmo instante. Quando o olhar de “Murilo” encontrou o olhar de Luara, o coração da princesinha desabrochou como uma rosa deslumbrante e perfumada. A expressão em seu rosto nunca mais foi a mesma, porque Luara, além de sorrir com os lábios, começou a sorrir também com o olhar. E o bondoso rei Clemêncio, apesar da aparente origem humilde do eleito do coração de sua filha, consentiu o namoro e sugeriu que o jovem se instalasse no palácio.

As imagens no espelho desapareceram, e os dois irmãos sorriram comovidos com a história do príncipe Leopoldo. Ambos concordaram que deveriam fazer-lhe uma visita.

(Não perca, no próximo domingo, dia 07/07/13, a 3ª Parte da história “Unidos na Busca pela Paz”.)

Até breve.
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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