O PRÍNCIPE GUILHERME E A FADA DA FLORESTA (3ª Parte)

Três semanas depois, os dois jovens já se encontravam no outro castelo. Todos ficaram muito felizes com a chegada do “príncipe”, e a notícia de que ele só fora até lá para encontrar sua noiva espalhou-se rapidamente. Apesar disso, Guilherme e Gouveia pareciam desanimados quando começaram a conversar em um canto do jardim:

– Gouveia, este já é o terceiro dia que recebemos as visitas, e ainda não vi uma só jovem que pudesse ser a minha princesa.

– Não acha que estamos nos arriscando demais? Alguém poderia desconfiar que você é o príncipe.

– Creio que não. Ninguém nota a minha presença. Estou sempre ao seu lado, e é como se eu não existisse.

– Guilherme, também não estou achando essa representação nem um pouco divertida. Aquelas moças mais parecem um bando de pequenas víboras, interessadas apenas na sua fortuna.

– Não; você está exagerando… Muitas delas são riquíssimas; são princesas também. Não precisariam estar aqui por interesse.

Gouveia já ia se retirando, quando Guilherme o chamou de volta:

– Espere um pouco.

– O que houve?

– Olhe para aquela jovem que acabou de entrar. Não é linda?!… Aproxime-se dela; eu ficarei aqui.

– Não é justo. Por que você mesmo não conversa com ela? Poderíamos estar desperdiçando a sua grande oportunidade. E se ela acreditar que sou você, e agir como as outras?

– É um risco que tenho que correr.

– Está bem; farei o melhor que puder.

Gouveia acercou-se da recém-chegada, dizendo:

– Bom dia. Parece estar procurando alguém…

– Procuro pelo príncipe Guilherme. Sabe onde posso encontrá-lo?

– E se eu lhe dissesse que sou Guilherme, e estou encantado que tenha atendido ao meu convite?

– Você é o príncipe?

– Está decepcionada?

– Sim. Quero dizer, não.

– Você disse sim, e quis dizer sim.

– Por favor, perdoe-me.

– Não poderei perdoá-la enquanto não disser o que há de errado comigo.

– Não há nada errado. Quero apenas ir embora.

– Mas você acabou de chegar e disse que desejava me ver…

– Sem querer ofendê-lo, mudei de ideia.

– Peço-lhe que se case comigo.

– Não foi para isso que vim.

– Então, por que veio?

– Não sei. Creio que cometi um engano.

– Como ousa insultar-me assim? Conhecer-me é um engano? Não me acha atraente?

– Por favor, Alteza; está me deixando sem jeito. Os olhares estão todos voltados para esta direção…

– Não me importo com o que pensem. Estou apaixonado por você.

– Apaixonado por mim? Como pode dizer isso se acabamos de nos conhecer?

– Desejei torná-la minha esposa desde o primeiro instante em que a vi. Quer que eu mande todas essas jovens embora?

– Não, por favor, não faça isso. Quero apenas que me deixe ir. Arrependi-me de ter vindo.

– Quero ouvi-la dizer que seria capaz de se apaixonar por mim.

– Alteza…

– Diga Guilherme. Quero ouvi-la pronunciar o meu nome.

– Deixe-me ir. Olhe para todas essas moças… Tenho a certeza de que qualquer uma delas ficaria honrada em ser sua esposa.

– Não quero nenhuma delas; quero você.

– Não pode ser… Vossa Alteza é bonito, atraente; mas isso não basta.

– Toda a minha fortuna não seria suficiente?

Sentindo-se profundamente ofendida, a jovem esbofeteou Gouveia. Guilherme estava felicíssimo. Certamente seria ela a sua esposa. Ele se aproximou de Gouveia para representar o papel de guarda pessoal do “príncipe” e, dirigindo-se à jovem, disse:

– Não deveria ter feito o que fez. Peço-lhe que se retire.

– Nada me daria mais prazer. Nunca fui tão ofendida em toda a minha vida.

Gouveia fingiu-se indignado:

– Ofendida? Peço-a em casamento; ofereço-lhe tudo o que tenho; e ousa dizer que a ofendi?

As outras moças pareciam surpresas e começaram a conversar entre si. Guilherme, por sua vez, procurando conhecer o coração da jovem disse:

– Peço-lhe que aceite o pedido de casamento do príncipe Guilherme, e tudo ficará esquecido.

– Não posso, porque não o amo.

– Alteza, peço permissão para conversar com a jovem em particular.

– Não me oponho, desde que consiga convencê-la a se casar comigo.

Depois, dirigindo-se às outras moças, Gouveia disse:

– Gostaria de pedir-lhes que se retirassem. Já escolhi a minha noiva.

Todas saíram resmungando indignadas com a indelicadeza do “príncipe”. Guilherme, que ainda pôde assistir à cena, teve que se controlar para não rir. O seu amigo sabia mesmo como ir direto ao assunto.

A jovem mostrava-se ainda relutante:

– Perde o seu tempo!

– Por favor, acompanhe-me. Preciso lhe falar.

– Acredita mesmo que possa me convencer a casar com o príncipe?! Não seja tolo! A única coisa que desejo é sair daqui o quanto antes.

– Quer que eu a ajude a fugir?

– Faria isso por mim?

– Sim. Mas antes responda: por que razão você veio?

– Quando ouvi meus pais falarem sobre o desejo do príncipe de encontrar sua noiva, pensei que talvez… É tolice!

– Não, por favor, continue. Pensou que talvez…

– Fosse ele o homem dos meus sonhos. Entretanto, assim que fiquei sabendo que aquele  era o príncipe, percebi o quanto eu havia me enganado.

– Além de belo, ele é rico e generoso.

– Isso não significa nada. Tire-me daqui. Sei que ele não me ama; deseja apenas impor sua vontade.

– Você ainda não me disse o seu nome.

– Elisa.

– Elisa… É um nome muito bonito!… Combina com você.

– Obrigada. Qual é o seu?

O príncipe não esperava a pergunta; entretanto, preferiu não mentir. Respondeu:

– Guilherme.

– Que coincidência… Guilherme, você se casaria comigo?

– Você deve estar maluca! Recusa-se a casar com o príncipe, e depois pergunta se eu me casaria com você!…

– Responda-me, por favor. Se você não fosse tão fiel ao príncipe… Ora, esqueça! Não precisa responder. Talvez os meus pais tenham razão quando dizem que vivo em um mundo de sonhos!

– Você acredita que eu poderia fazer parte dos seus sonhos?

– Não sei o que está acontecendo comigo… A resposta é sim. Eu pensei que tivesse vindo em busca do príncipe; mas agora percebo que era à sua procura que eu estava.

– Como pode ter certeza?

– Eu sinto.

– Se eu lhe pedisse que se casasse comigo, você aceitaria?

– Mas, e o príncipe?… Você não teria a menor chance de desafiá-lo.

– Apenas uma suposição… Você aceitaria?

– Sim.

– Mesmo sabendo que eu não a amo?

– Não; nesse caso, não.

– E se eu lhe dissesse que fui vítima de um encantamento, e não consigo me apaixonar?…

– Acredita mesmo nessas coisas?

– Que outra explicação haveria para o fato de eu ser incapaz de amar?

– Mas você é apenas um guarda; por que alguém faria algo tão terrível contra você?

– Elisa, eu sou o príncipe.

– Você? Então, por que a farsa?

– Não posso me casar com alguém que se interesse por mim apenas por eu ser um príncipe.

– Que alívio! Não terei que fugir dele. Quem é ele?!

– Não se preocupe; você irá adorá-lo. É o meu melhor amigo. Chama-se Gouveia.

Gouveia ficou satisfeito ao saber que o plano da rainha dera resultado. Entre sorrisos, ele se desculpou com Elisa, e os dois se tornaram amigos.

(Não perca a 4ª Parte da história “O Príncipe Guilherme e a Fada da Floresta”, na PRÓXIMA 5ª FEIRA, dia 04/07/13.)

Até breve.

Sisi Marques

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