SERAFIM E A BRUXA LINDALVA (Parte 4)

Quando a noite chegou, Lindalva, aproximando-se da casa de Júlia, conseguiu entrar em seu sonho; e, com a voz mansa, disse:

– Acorde, preguiçosa! Não quer tornar a ver o seu amor? Levante-se e desça que vou conduzi-la até ele.

Depois de alguns minutos, Júlia, sonolenta, deixou a casa e seguiu em companhia de Lindalva.

Na manhã seguinte, Serafim pousou na sacada como de costume, mas Júlia não apareceu. Preocupado, ele se aproximou da janela e verificou que ainda estava fechada. Júlia não costumava dormir até tarde. Ele teve um pressentimento de que algo muito ruim deveria ter acontecido. Sem pensar duas vezes, voou em direção à casa de Lindalva. A casa estava em silêncio. Lindalva parecia ainda estar dormindo.

Pensando que tivesse se preocupado à toa, Serafim começou a sobrevoar a região apenas para relaxar e deixar que alguns minutos se passassem antes de tornar a visitar Júlia. Todavia, ele mal iniciou o percurso, e sua visão telescópica chocou-se com um quadro que o deixou profundamente arrasado: Júlia estava deitada no topo de uma colina, com as mãos e os pés amarrados em duas estacas. Como se isso não bastasse, uma cobra arrastava-se em sua direção.

Numa velocidade alucinante, ele mergulhou e, segurando firme a cabeça da cobra com o bico, fez com que ela rodopiasse no ar, antes de atirá-la longe.

Júlia agradeceu-lhe:

– Obrigada, avezinha! Não sei nem lhe dizer como foi que vim parar aqui. Juro que não estou disposta a servir de refeição às cobras ou aos abutres. Será que não consegue me desamarrar com o seu bico?

Demorou um pouco, mas Serafim conseguiu finalmente libertá-la. Júlia, depois de massagear os pulsos e os tornozelos, abraçou o gavião.

Serafim sentia a alma leve e, elevando-se um pouco do chão, fez um sinal com a cabeça para que Júlia segurasse em seus pés.

Com receio de que suas garras a machucassem, Júlia recusou o oferecimento:

– Talvez não seja uma boa ideia! Pode ser que você não aguente o meu peso.

Serafim percebeu que ela estava com medo. Mas infelizmente não havia outro modo de tirá-la dali. E era preciso tirá-la bem depressa, antes que Lindalva voltasse.

Entretanto, Júlia não se animava a segurar em seus pés e, muito menos, a esticar os braços para que ele a segurasse. Serafim tornou a pousar. Abaixou o mais que pôde até Júlia compreender que deveria montar em suas costas.

Júlia compreendeu, mas parecia aterrorizada. Finalmente disse:

– Sinto muito, avezinha… Não vou subir, porque tenho medo de cair de lá de cima!

O gavião abanou a cabeça como a dizer-lhe que não deveria se preocupar. Júlia, compreendendo-o, exclamou:

– Está bem! Se você está tentando me dizer que é seguro, é porque deve ser. Às vezes, você parece humano!

Júlia subiu em suas costas, e Serafim, satisfeito, levantou voo. Depois de alguns minutos, ele virou levemente a cabeça para certificar-se de que Júlia estava apreciando o passeio. Ficou surpreso ao ver que ela estava sim era com os olhos fechados, e pálida de medo. Sorriu consigo; em breve, ele já a teria deixado em segurança na sacada de seu quarto.

(Não perca, no próximo domingo, dia 30/06/13, a 5ª Parte da história “Serafim e a Bruxa Lindalva”.)

Até breve.

Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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