SERAFIM E A BRUXA LINDALVA (Parte 3)

Serafim sentia-se muito estranho naquela sua fantasia de passarinho. Tentou articular a voz; mas tudo que conseguiu foram apenas gorjeios. Júlia! Como Júlia poderia compreender essa sua nova linguagem?!…

Resolveu não se desesperar. Voou até a janela do quarto de Júlia e pôde surpreendê-la chorando. Começou a cantar para chamar-lhe a atenção.

Júlia levantou a cabeça do travesseiro e olhou em direção à janela. Ao ver a avezinha, um calor mágico aqueceu seu coração, e, enxugando as lágrimas, ela sorriu.

Pensando que fosse realmente um rouxinol, Júlia aproximou-se da janela devagarzinho para não assustá-lo. Feliz, porque o passarinho não fugiu, começou a acariciar-lhe levemente a cabecinha.

O carinho de Júlia fez o coração de Serafim estremecer, e, embalado pelo sentimento que lhe alegrava a alma, Serafim cantou mais e melhor do que qualquer rouxinol já havia cantado.

Júlia apaixonou-se pelo canto da avezinha, e suas visitas constantes atenuavam a dor que a saudade de Serafim ainda lhe causava.

Certo dia, entretanto, Lindalva também escutou o canto apaixonado da avezinha e, associando-o ao som do violão de Serafim, torceu a cara ao pensar que só poderia ser ele cantando para Júlia.

Um ódio mortal enegreceu sua alma quando, aproximando-se da casa de Júlia, viu os dois namorando à janela. Ela o envolvia com o olhar, e ele a fazia sonhar com o seu canto.

Lindalva resmungou para a ave de estimação pousada em seu ombro:

– Exatamente como eu suspeitava: os dois estão juntos! Tenho que encontrar um meio de separá-los!…

Nisso, o rouxinol voou em direção ao solo para apanhar uma flor que estava caída. Com a rapidez do vento, Lindalva teve uma ideia e a executou. Quando Serafim voltou à janela de Júlia, não era mais um rouxinol e sim um enorme gavião.

Embora Júlia tivesse reparado na flor que ele trazia no bico, sentiu um medo terrível e, tremendo apavorada, fechou rapidamente a janela. Por pouco, Serafim não bateu o bico de encontro ao vidro.

Lindalva, satisfeita com a cena que presenciara, piscou para sua ave vermelha e, após escancarar um maldoso sorriso, partiu.

Contudo, passados alguns minutos, Júlia, já refeita do susto, tornou a abrir a janela para poder observar melhor a gigantesca ave, que estava pousada no parapeito da sacada ainda segurando a flor em seu bico.

Um pouco indecisa, ela abriu a porta que conduzia à sacada e, aproximando-se do gavião, apanhou a flor. Serafim, feliz ao notar que Júlia não se afastaria dele, voou bem alto, deu uma cambalhota no ar, tornou a mergulhar e, antes de voltar a pousar no parapeito, arriscou outra cambalhota.

Júlia, impressionada com a habilidade da corajosa avezinha, começou a aplaudir. Serafim, satisfeito com o seu entusiasmo, começou a ensaiar novas acrobacias.

Assim, as acrobacias do gavião passaram a substituir o canto do rouxinol, e Júlia e Serafim ainda continuavam unidos.

Infelizmente não demorou muito para que Lindalva também começasse a observar Serafim exibindo-se para Júlia. Exclamou para a estranha ave em seu ombro:

– Maldição! Será que foram feitos mesmo um para o outro?!

Depois, acrescentou mal-humorada:

– Não! Não pode ser! Nunca acreditei nessas coisas; não seria agora que eu iria começar a acreditar! Tenho que pensar melhor; deve haver um jeito!

Ainda maquinando contra Serafim e Júlia, Lindalva partiu.

(Não perca, no próximo domingo, dia 23/06/13, a 4ª Parte da história “Serafim e a Bruxa Lindalva”.)

Até breve.

Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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