O PRÍNCIPE GUILHERME E A FADA DA FLORESTA (1ª Parte)

Há muitos e muitos anos, num reino longínquo, a rainha concebeu um menino no mesmo dia em que a fada da floresta também deu à luz seu primeiro filho. Tudo era beleza e encantamento, tanto no reino quanto na floresta, até que um duende travesso resolveu aborrecer a fada dizendo-lhe:

– Minha nobre e gentil fada da floresta, sei que estás feliz com o nascimento de teu belo filho; entretanto, é meu dever avisar-te de que a rainha teve um menino que em tudo superará o teu.

– Duende atrevido! Como ousas insultar-me assim? Não te tratei sempre com bondade? Não te salvei sempre das dolorosas consequências de tuas travessuras?

– É exatamente por esse motivo, minha adorada fada, que vim falar-te a respeito do filho da rainha. Quando ele e o teu filho crescerem, apaixonar-se-ão pela mesma princesa. E, se não fizeres algo para compensar a desvantagem de teu filho em relação ao príncipe…

– Como posso ter certeza de que não se trata de outra de tuas mentiras?

– A minha fada amiga poderia ir ao castelo e verificar que o que digo é a mais pura verdade.

A fada dirigiu-se ao castelo imediatamente. Chegando lá, sem muita cerimônia, disse que gostaria de conhecer o pequeno herdeiro ao trono. O rei ficou felicíssimo ao vê-la, porque imaginou que ela poderia trazer muita sorte ao príncipe. Conduziu-a, sem demora, aos aposentos da rainha, e a fada ficou pálida de inveja ao fitar o rosto tranquilo da adorável criança. O duende não mentira: a beleza de seu filho jamais poderia ser comparada à do príncipe. A fada, não conseguindo conter-se, exclamou:

– Desgraçado!

O rei e a rainha perceberam que algo estava errado. A rainha, então, dirigindo-se à fada, disse:

– O que está havendo? Pensamos que tivesses vindo aqui para abençoar nosso filho, e realçar alguns de seus dons!…

– Abençoar essa criança?!… A única bênção que posso conceder-lhe é o abrandamento da minha maldição.

O rei desesperado gritou:

– Saia daqui, impostora! As fadas da floresta não são más. É mais provável que sejas uma bruxa.

Pobre rainha! Estava tão transtornada que desmaiou. O rei acomodou-a sobre o leito, enquanto ouvia atenciosamente as palavras da fada:

– Uma fada não costuma ser má, a menos que veja a felicidade de seu filho ameaçada. O duende da floresta contou-me que o príncipe era mais belo que meu filho; e que ainda seria melhor do que ele em todos os aspectos. Como se isso não bastasse, os dois apaixonar-se-iam pela mesma mulher.

O rei permanecia calado, porque temia deixar a fada ainda mais furiosa. Em sua prece silenciosa, ele pedia misericórdia para o seu pequenino filho.

A fada prosseguiu:

– Este assunto já está se tornando deveras cansativo; por esse motivo serei breve. O príncipe realmente será muito mais belo, corajoso e nobre em suas ações do que o meu amado filho; infelizmente não posso evitar que isso aconteça. Mas há algo que posso fazer, e sei que resolverá toda a situação…

A rainha, que voltara a si pouco antes, correu em direção ao berço para cobrir o filho, na esperança de protegê-lo do feitiço da fada.

A fada, rindo da atitude ingênua da rainha, disse:

– Não penses que poderás poupá-lo de seu infeliz destino. O príncipe amará muito o seu reino, e esse amor será sempre edificado na mais pura caridade para com outro ser humano…

O rei parecia sentir-se aliviado, pois o príncipe seria a concretização de seu antigo sonho: um herdeiro nobre e justo. Entretanto, o sonho do rei deu lugar a um terrível pesadelo, quando a fada finalizou o seu discurso:

– Contudo, o príncipe será protagonista de uma tremenda contradição: amará a todos com lealdade e desprendimento, terá um enorme coração para assuntos relacionados com o bem-estar e a felicidade de seu povo; mas, por outro lado, esse mesmo coração jamais pulsará pelo amor de uma mulher.

– Oh, minha querida fada, achei-o tão engraçadinho! Será que não poderíamos lhe dar uma oportunidade, bem pequenina, de ser feliz?

O súbito aparecimento do duende surpreendeu a fada, e assustou o rei e a rainha, que nunca tinham visto um serzinho tão ágil e astuto.

– Ah, moleque endiabrado! Como te atreves a aborrecer-me outra vez? Por acaso pensas que sou tola? Não! Ele não terá a menor chance.

– Tens razão! Também, de nada lhe valeria o que eu pensei em propor… Onde poderia haver uma jovem tão nobre quanto ele, que o aceitasse por esposo sabendo que seu amor jamais seria correspondido? Seria o mesmo que se apaixonar por um bloco de gelo. Frio e insensível, ele nunca poderia confessar-lhe o amor que não sente. Ela não passaria nem um mês ao lado dele, quanto mais sete meses…

– Tu és maluco! Para que atenuar o feitiço, estipulando um modo de quebrá-lo, se tu sabes que nunca apareceria uma jovem que consentisse em se casar com alguém que não a ama?

– Ela poderia se casar por interesse; afinal de contas, ele é o único herdeiro…

– Não sejas estúpido! Só isso já bastaria para que ela não o merecesse, e impossibilitá-la-ia de ajudá-lo a quebrar o encanto.

O duende era persistente, e parecia mesmo disposto a conceder ao príncipe uma oportunidade de livrar-se do feitiço. Continuou, então, tentando enganar a fada:

– Era exatamente nesse ponto que eu desejava chegar…

A fada, que estava começando a se zangar, disse-lhe asperamente:

– Diga logo o que tens a dizer. Pensas que tenho o dia todo?

O duende, para que o rei e a rainha não pudessem ouvi-lo, disse à fada telepaticamente:

– Não me interessa desfazer o feitiço que colocaste sobre o príncipe. Quero apenas certificar-me de que o caminho para o teu filho estará livre quando aquela jovem aparecer.

A fada respondeu-lhe também telepaticamente:

– Não compreendo onde queres chegar. O caminho já está livre. O príncipe não poderá se apaixonar nem por ela, nem por ninguém.

– Mesmo assim, ela poderia se apaixonar por ele.

– Eu não havia pensado nisso. Entretanto, ainda não vejo em que essa sua invenção de quebra de feitiço poderia ajudar.

– Permita-me explicar: o rei e a rainha, na esperança de livrarem o filho do feitiço, insistirão para que ele se case com a primeira jovem que parecer se interessar por ele. É evidente que o príncipe não terá condições de dizer se ela é ou não a mulher de sua vida. Assim, em pouco tempo, ele estará preso a um casamento infeliz; e quando a princesa de seus sonhos aparecer…

– Só haverá o meu filho para conquistá-la. És realmente muito esperto. Acredito que tenhas razão.

O duende vibrou de satisfação quando a fada, dirigindo-se ao rei e à rainha, disse:

– Prestai bastante atenção, pois só direi uma vez; e, depois disso, nunca mais tornareis a me ver. Como sou generosa, decidi conceder ao príncipe a oportunidade de desfazer o encanto.

Os pais de Guilherme, nosso principezinho, esperançosos, ouviram-na dizer:

– Se o príncipe se casar, e esse amor não correspondido conseguir sobreviver durante sete meses, ele estará livre para se apaixonar. Contudo, há um risco que ele terá que correr: caso venha a se apaixonar por outra mulher, em vez daquela que o ajudou a se desvencilhar do encanto, e desta quiser se separar, o seu coração se fechará novamente para o amor.

O rei e a rainha olhavam desolados para Guilherme. Certamente ele jamais seria feliz. Não! Eles se recusaram a perder a esperança. Embora aquela fosse uma possibilidade bem remota, não deixava de ser uma possibilidade.

(Não perca a 2ª Parte da história “O Príncipe Guilherme e a Fada da Floresta”, na PRÓXIMA 5ª FEIRA, dia 20/06/13.)

Até breve.

Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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