O GIGANTE, A CAVEIRA E A MAÇÃ

A história a seguir foi escrita com a colaboração de 23 alunos da EF-A (EJA): Alessandra Santos, Ana Paula, Anésia Hirano, Brunna Almeida, Caique Queiroz, Caroline Alves, Clemente Sousa, Cléo Santana, Diogo Gonçalves, Elza Ribeiro, Esmerino Gomes, Felipe Larentes, Íris Alves, Ivanice Barros, Josias Arcanjo, Lucas Renan, Mario Wanderley, Natalia Ribeiro, Olício Nascimento, Patricia Nascimento, Robson Campos, Stephany Francisco e Thaís Duarte.

O GIGANTE, A CAVEIRA E A MAÇÃ

Era uma vez um rapaz que se chamava João. Numa manhã de setembro, ele foi para a escola imaginando que aquele seria um dia igual aos outros, mas se enganou porque, em sua sala, havia uma aluna nova que fez o seu coração disparar. Seu nome era Margarete.

A partir daquele momento, João fez de tudo para chamar sua atenção. Na aula de Educação Física, ele jogava bola como ninguém, e se esforçava ao máximo, quando imaginava que ela pudesse estar olhando. Certo dia, faltava pouco para o jogo terminar, e ele se sentiu frustrado ao vê-la ir embora tão logo o sinal tocou. João ficou remoendo a mágoa de que aquele havia sido o seu melhor jogo, e Margarete fora embora antes que a partida terminasse.

Houve uma semana em que Margarete não compareceu à escola. Quando ela faltou às aulas novamente no início da semana seguinte, em vez de ir à escola, ele foi à sua casa, na esperança de conseguir vê-la. João sabia onde ela morava, porque certa vez não conseguiu resistir ao ímpeto de segui-la.

Muito tímido e envergonhado, João tocou a campainha, e viu sair um homem, que olhava para ele com ar de desconfiança e perguntou o que ele desejava.

João, por sua vez, enrolou-se todo, gaguejou, quase perdeu a fala, até que finalmente conseguiu perguntar por Margarete, e comentou que, na semana anterior, ela não havia comparecido à escola.

O homem que atendera João convidou-o a entrar, e trancou a porta logo em seguida. Ele parecia estar com medo de algo. Após olhar nos olhos de João, ele disse:

– O meu nome é José. Margarete é minha filha, e você parece gostar muito dela. Talvez consiga me ajudar a descobrir o que aconteceu naquele sábado. Eu sou viúvo. Minha esposa chamava-se Mariana, e gostávamos de sair para pescar, levando nossa filhinha que ainda era muito pequena. Quando Mariana faleceu, Margarete pediu-me que continuasse levando-a nos finais de semana para pescar, porque esse era o passatempo favorito de sua mãe.

Após uma pequena pausa, José prosseguiu:

– No sábado retrasado, como costumávamos fazer em todos os sábados, pegamos a estrada e fomos até a lagoa para mais uma agradável pescaria. Pelo menos, acreditávamos que assim seria. Mas tudo pareceu virar do avesso no momento em que jogamos as iscas. Eu pensei que tivesse apanhado um peixe enorme, porque o peso do que havia enganchado no anzol fazia a minha vara de pesca envergar, e eu não conseguia puxá-la. Margarete veio em meu auxílio. Para nosso espanto, descobrimos que havíamos retirado da lagoa uma bota cheia de lama. Quem teria um pé tão descomunal para calçar uma bota daquele tamanho? Não olhe para mim desse jeito! Pareço estar mentindo?!…

João respondeu embaraçado:

– Certamente que não. O que houve depois?

– Com receio de que não acreditassem em nossa história, e pensassem que havíamos enlouquecido, cobrimos a bota com galhos secos para escondê-la. Eu fiquei vigiando o local, e Margarete foi até o carro para apanhar o celular. Ela não retornou. Fiquei preocupado, e fui ao seu encontro. O celular estava caído próximo ao carro, e minha filha havia desaparecido. Durante alguns minutos, fiquei sem ação. Depois, telefonei e contei tudo à polícia. Quando os dois guardas florestais foram inspecionar o lugar onde Margarete e eu havíamos escondido a bota, não encontraram nada. Eu havia tomado uma cerveja antes de começarmos a pescar, e o cheiro do álcool fez com que os guardas pensassem que eu estivesse embriagado. Eles partiram rindo da minha história. Eu tenho a certeza de que o desaparecimento de Margarete está relacionado àquela bota que parecia pertencer a um gigante.

João, para tranquilizar o pai de Margarete, disse-lhe que encontraria sua filha. E José, percebendo que havia sinceridade nos olhos do rapaz, contou-lhe que omitira uma parte da história. O celular encontrado no chão estava envolto por uma folha de papel, na qual havia uma mensagem de Margarete que dizia: “Pai, o senhor precisa encontrar a maçã da vida eterna. Ela está guardada no túmulo de uma caveira que foi sepultada no fundo da lagoa. A bota que encontramos pertence ao gigante que está à procura da maçã. Ele a perdeu quando tentava localizar o túmulo. Segundo ele, apenas alguém de coração puro conseguirá obter a maçã avermelhada, cuja casca se torna reluzente porque é banhada com gotas de água sagrada.”

Determinado, João disse:

– Embora eu não seja perfeito, o amor que sinto por Margarete torna o meu coração cristalino. Mergulharei naquele lago durante a minha vida toda se for preciso, para conseguir a maçã que poderá trazer Margarete de volta.

João provou que a devoção ao seu amor não era apenas constituída de palavras. Sua busca durou sete anos. Ele encontrou o túmulo, e conheceu a caveira que passou a respeitá-lo por seu amor à jovem e por sua persistência. Ao receber o tão merecido prêmio, ele não conseguiu evitar a pergunta:

– Por que você foi sepultada no fundo desta lagoa, isolada de tudo e de todos?

A caveira respondeu:

– Essa foi a minha punição por sair do túmulo todas as madrugadas, para ficar em cima do muro assustando as pessoas que passavam em frente ao cemitério. Certo dia, eu tentei assustar uma garotinha chamada Ana, mas não consegui. Isso deve ter acontecido há quinhentos anos, e parece que foi ontem. Houve uma reunião no submundo; me enclausuraram naquele túmulo que você mesmo pôde ver, e me incumbiram de guardar a maçã até que você aparecesse. Agora a minha alma pode se libertar, e eu não precisarei mais ficar agarrada a este amontoado de ossos. Há um detalhe que o gigante não revelou a Margarete no momento em que a fez escrever o bilhete: a maçã não está destinada a ele, e sim a você. Ao mordê-la, você será transportado para a dimensão onde Margarete o espera. Diga adeus a este mundo, e vá viver o seu amor eternamente.

João agradeceu e, sem hesitar, mordeu a maçã que selaria o seu destino.

FIM

Sisi Marques & Colaboradores

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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One Response to O GIGANTE, A CAVEIRA E A MAÇÃ

  1. Ketlyn Mayla says:

    Que imaginação *parabéns para o turno noturno* e para a profª Sisi :D

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